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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A imaginação é a fortaleza das crianças

EXCOGITATIO ARX INFANTIUM. Esse lema encontra-se na folha de rosto de O Rei Adulto. É uma expressão latina que significa "a imaginação é a fortaleza das crianças". Como todo lema, busca sintetizar um conceito mais amplo: a imaginação é, simultaneamente, o bastião que as protege contra as vicissitudes da realidade e o palco de diversões que as permite representar papéis novos e transcender as limitações da vida.

Don Kichote (2016): ilustração de Mateusz Lenart para o 'Good Pixels' Charity Auction
destinado a apoiar crianças com transtorno autista. Outras obras de Mateusz Lenart
podem ser vistas em sua galeria virtual. Reproduzido com permissão do artista.

Essa ideia é constante na obra de Michael Ende. Por exemplo, em Momo (1973), as crianças sofrem quando são levadas a usar apenas brinquedos (eletrônicos) que não estimulam sua imaginação; e em A História Sem Fim (1979), Bastian busca em livros e na imaginação um refúgio contra a dor pela recente perda de sua mãe e contra o bullying do qual é vítima.

Vários educadores investigam as características da imaginação infantil, ressaltando sua importância para contextos pedagógicos, quando a escola acolhe a imaginação dos petizes qual ferramenta para que a criação e incorporação de conteúdos educativos possa se tornar mais efetiva.

Há alguns dias, descobri um artigo de 2011, da Profa. Gilka Girardello (UFSC), que compila várias considerações e citações de educadores acerca da imaginação infantil. Cabe destacar alguns trechos desse artigo e relacioná-las a excertos de O Rei Adulto, que esmiuçam o lema supracitado.

A imaginação é também uma dimensão em que a criança vislumbra coisas novas, pressente ou esboca futuros possíveis. (Girardello, pg. 76)

Toda a magia de nosso mundo vem de nossa imaginação. Quanto maior for a imaginação, mais rebuscada é a magia. Por isso as plantas de imaginar provocam efeitos mágicos. (Fala de Áymar; O Rei Adulto, vol. 1, pg. 146)

A entrega à criação imaginativa sem pressa é uma forma de contemplação, que, segundo Mock, é dificultada pelo clamor auditivo e visual da agitação contemporânea. (Girardello, pg. 78)
Porém, como quase todos os antigos segredos infantis, hoje em dia poucos são aqueles que alguma vez conseguiram captar tal música, seja porque nunca se aventuram em coisa alguma, seja porque vivem já tão cercados de ruídos desarmônicos e cacoeletrofônicos, que a música é totalmente abafada. (Sobre a música dos passos; O Rei Adulto, vol. 1, pg. 78)

No jardim, a criança é livre para devanear e falar com amigos reais ou fictícios, resguardada do olhar do adulto; é livre para compor mundos inteiros com pedras, sementes e insetos, encontrando a multiplicidade das formas e a imprevisibilidade do comportamento dos organismos. (Girardello, pg. 80)

Sempre que as crianças deixam de imaginar, perdem a ligação com nosso mundo (já que ele é todo alicerçado na imaginação...). (Fala de Uaioé; O Rei Adulto, vol. 1, pg. 114)

A necessidade de histórias tem sido identificada como um aspecto central na vida imaginativa das crianças. (Girardello, pg. 82)

Na vida das crianças de lá havia, antes de tudo, uma aridez de histórias. E as crianças estavam aos poucos definhando numa infância sem qualquer rasgo de criatividade. A falta de histórias lhes havia tirado todo o vínculo com a natureza, pois a fantasia é tão vital quanto a água, embora poucos saibam disso. (O Rei Adulto, vol. 1, pg. 199)

Podemos considerar que a vida de cada uma daquelas crianças (...) seja como um bosque úmido de folhas e galhos, cheio de aventura, perigo, romance, heroísmo, medo, rotina e todos os outros matizes da condição humana. Quando as crianças brincam umas com as outras, cada bosque se entremeia ao outro, formando um só. (Girardello, pg. 83)

É essa teia mágica que pode ser moldada com facilidade pela imaginação das crianças e torna seu mundo tão encantador e envolvente. (O Bosque Esquecido; em O Rei Adulto, vol. 1, pg. 281)
Mundo das Crianças ou Mundo Mirim. Ambas as denominações são usadas como sinônimos no romance O Rei Adulto. Esse mundo é representado como uma realidade paralela; como se as crianças, ao reunirem-se para brincar, deixam o mundo físico e penetram num mundo de fantasia próprio apenas delas. (Em qual reino você morava quando criança?, blog O Rei Adulto, 14 de julho de 2016)

Podiam-se ver os Alpes claramente naquela tarde. “Olhe lá” — posso ouvi-la dizendo no dialeto suíço — “as montanhas estão todas vermelhas”. Pela primeira vez eu via os Alpes conscientemente.  Então me disseram que no dia seguinte as crianças da escola da vila iam dar um passeio até Uetlieberg, perto de Zurique. Eu queria muito ir também. Para minha tristeza, fui informado de que crianças pequenas como eu não podiam ir, nada havia a fazer. Daí em diante, Uetliberg e Zurique tornaram-se uma inatingível terra de sonhos, perto das montanhas brilhantes cobertas de neve. (Carl Gustav Jung, apud Girardello, pg. 79).

Segundo se dizia, era um local onde nenhuma criança jamais esteve... Essas montanhas excitaram a imaginação das crianças de todos os reinos, dando origem a uma infinidade de lendas. (Sobre os Montes Altos; O Rei Adulto, vol. 1, p. 35)
O Rei Adulto foi escrito entre 1991 e 2001, bem antes do artigo da Profa. Girardello, por isso não deixa de ser divertido e recompensador encontrar essas similaridades. Como educadora, Girardello atentou mais para as potencialidades do uso da imaginação infantil para a pedagogia. Mas não ignora sua função de proteção da psique da criança, como este trecho mostra:

Outra característica da imaginação da criança, segundo Kieran Egan, é o envolvimento com o arquétipo romântico do herói, que permite à criança pensar nela mesma como capaz de transcender os limites impostos pela vida real, triunfando sobre as "forças da opressão". (Girardello, pg. 86)

Herói ou heroína, é preciso deixar claro. Ou essa mocinha aí em baixo não ficará nem um pouco satisfeita!

Imagem de Aks9215, distribuída pela licença CC0.

Referências

Imaginação: arte e ciência na infância. Gilka Girardello (2011), Pró-Posições, Campinas, vol. 22, no. 2 (65), pp. 75-92