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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Onde a história começou

Ao fundo, o Observatório do Valongo, da UFRJ

Quando comecei a escrever O Rei Adulto, estava no quinto período do curso de graduação em Astronomia da UFRJ. Foi no Observatório do Valongo que essa história começou a tomar forma.

Noutras postagens, comentei que o livro A História Sem Fim me inspirou, mas houve um evento anterior, que ocorreu justamente no observatório: as aulas do Prof. Jorge Albuquerque Vieira num curso de epistemologia e filosofia da Ciência, no segundo semestre de 1990. Eram aulas inesquecíveis, que nos levavam a pensar fora dos padrões, a questionar a informação e o modo como o conhecimento humano se construía. A partir dessas aulas, um problema ético, associado a um experimento mental que desenvolvi, começou a me afligir:
"Se fosse possível viajar no tempo e se encontrar com seu eu do passado, e este nos perguntasse se tínhamos sido capazes de realizar seus sonhos de infância, o que diríamos? Como explicar àquele menino que vários de seus sonhos teriam perdido sentido em meio às mudanças que a vida nos impele? Podería convencê-lo de que esses sonhos não realizados eram apenas dele e não mais meus? Éramos nós dois a mesma pessoa ou indivíduos completamente distintos, sendo eu apenas um 'herdeiro' de quem fui?"
Era essa questão que martelava em minha alma quando li A História Sem Fim, em março de 1991. E vem daí a história de um menino que precisa entender por que crescer.

Outro evento inesperado criou a oportunidade para que a história não viesse a ser abandonada logo nas primeiras páginas: a greve das universidades federais em 1991. Cursos de Física e Astronomia têm fama de serem difíceis e trabalhosos, e esta não é imerecida. A greve de 1991 deixou todos os alunos mais de 100 dias em casa sem aulas. Apesar disso, foi um período intelectualmente fértil para mim: com tempo livre, iniciei O Rei Adulto e também desenvolvi parte do que veio a ser meu TCC, finalizado em 1993.

Ocorriam no Observatório do Valongo, desde o começo de 1990, as primeiras partidas de RPG de que participei e que vieram a moldar a forma como a narrativa se desenrola em O Rei Adulto. Inicialmente nosso grupo (eu, Jorge Marcelino, César Caretta, Jônatas Suzuki e Gianlorenzo Santarosa) era mestrado pela Thaís Linhares, quem nos apresentou o Middle-Earth Role Playing Game (MERP). Depois, Thaís mudou de curso e assumi a tarefa de mestrar as campanhas.

Eram do observatório a maioria das pessoas a quem primeiro contei sobre essa história: meu grupo de RPG, Luciana Pompeia, Walquíria Schulz, Flávia Pedroza, Alessandra Wentrick, Nívia Diniz, Cintia Quireza e minha orientadora à época, Lilia Irmeli Arany Prado.

Formei-me em 1993 e afastei-me do observatório por onze anos, retornando em 2004 como professor concursado. Quando voltei a subir a íngrime ladeira que dá acesso ao instituto, lembrei-me da sensação de encanto que tive ao pisar lá pela primeira vez, em 1989, aos 18 anos de idade. E dei-me conta de quanto minha história de vida estava unida a este local: foi onde minha vida adulta de fato começou.