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sábado, 31 de dezembro de 2016

Duas ilustrações do palácio de Quérelim

Ao longo de dezembro, já me preparando para a produção do Book Trailer do livro O Rei Adulto, finalizei algumas ilustrações novas, que ainda não tinham sido descritas aqui, embora tenham sido postadas na fanpage, em versão de aquarela.

Essas ilustrações referem-se às cenas dos capítulos 7, 8, 9 e 10. Devido à quantidade de imagens que usei nas composições, esta postagem dará os créditos apenas para aquelas do capítulo 7 e 8. Dentro de alguns dias, farei o mesmo para as dos capítulos 9 e 10.

O Grão Paço Segundo de los Príncipes Tamatiscos

 

No capítulo 7, o leitor (e os personagens aventureiros) chegam a Paço e se encontram com a princesa Quérelim do Tamatich. O palácio de Quérelim é famoso por seus lustres e pelas paredes decoradas com desenhos em creiom.




Os aventureiros são convidados por Quérelim a se aconchegarem nas almofadas ao chão e se servirem de frutas que ficam num cesto ao lado. Segundo a história, o trono de Quérelim é encimado pelo busto dum unicórnio dourado que atravessa a parede. Membros da nobreza bisbilhotam a chegada dos viajantes. São esses os elementos que incorporei à cena.

O palácio de Quérelim veio dessa imagem, em domínio público, feita por Eduard Hau do palácio de inverno de Pedro o Grande. Nela, mudei a cor de algumas paredes para verde, por conta das cores nacionais tamatiscas serem vermelho e verde. O unicórnio foi dourado cuidadosamente a partir dessa ilustração feita por Budgme. Os desenhos infantis nas paredes vieram de várias imagens diferentes:
A princesa Quérelim, sentada ao trono, foi composta a partir dessa arte feita por Mystic Art Design. Suas roupas vieram dessa foto, de Adina Voicu, recolorida para um tom de verde.

O pedestal para o cesto de frutas foi colorido a partir de uma antiga fotografia P&B de um pedestal do Metropolitan Museum of Art, e o cesto veio de uma fotografia de Connie Frank.

A nobreza tamatisca foi composta também pela junção de várias imagens. As vestes do grupo à direita saíram dessa ilustração de vestimentas húngaras entre 1370 e 1410, feita por Géza Nagy, em domínio público. As crianças que passaram a encabeçar esse grupo vêm das seguintes imagens:
Já o grupo à esquerda vem de:

As imagens que não estão em domínio público foram distribuídas pelas licenças CC0 ou CC4-BY.

Estatuária em Paço

 

No capítulo 8, Êisdur e Wáldron exploram o palácio e, entre outras coisas, ficam a admirar os bustos dos antigos governantes do Tamatich, retratados fazendo caretas.



O salão onde estão os bustos foi representado por esta arte feita por Kristin Baldeschwiler. Recolori as cortinas, eliminei uma trinca de janeletas e coloquei um tapete no chão. A mesa em que os bustos se apoiam veio desta fotografia de uma mesa oval que se encontra no Los Angeles County Museum of Art. Tive de mudar a perspectiva da imagem para que ela parecesse ser vista de frente. Gravei nelas o escudo do Tamatich, para contextualizar a cena.

Os bustos foram criados a partir da fusão de uma fotografia de criança com a fotografia de algum busto real. Uma pele de mármore ou outra textura de rocha foi usada para igualar ambas as partes antes da fusão. A técnica não é complicada. Usei uma mistura dos recursos descritos no tutorial Turning People into Stone e na série de vídeos Pseudo Marble Statue Effect. Um dos principais problemas é como tratar os cabelos. Os tutoriais evitam essa questão, pois usam apenas a face, mesclando-a com a de outra estátua; ou usam modelos com poucos cabelos; ou deixam os cabelos com cor escura mesmo. Criei minha própria técnica para tentar dar conta disso: após dessaturar as imagens, usei o smudge tool do Gimp para obliterar a textura dos fios de cabelo e delineei com o airbrush tool, em preto e branco, as áreas mais claras e escuras do cabelo, para parecer com a sombra do relevo dos cabelos nas estátuas clássicas. Esse ajuste foi feito na base da tentativa e erro. Considero que ficou bom em algumas, mas não em todas.

As crianças peraltas que figuram como estátuas vêm das seguintes imagens:
Já os bustos foram os seguintes, todos em domínio público:
Finalmente, o escudo na parede veio desta imagem feita por midnightboheme; o unicórnio no escudo veio desta outra, de Silke Wurm; e a espada veio desta arte de Piotr Siedlecki.

Essa ilustração foi produzida em menos tempo que a anterior, e foi bem mais divertida, por conta das caretas das estátuas.

Por falta de espaço na cena, um dos bustos que criei ficou de fora. Mostro-o aqui porque também ficou engraçado. A criança original vem de uma fotografia de Noah feita por Sherif Salama.


As imagens que não estão em domínio público foram distribuídas pelas licenças CC0, CC2-BY ou CC4-BY.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Book trailer do livro O Rei Adulto

Finalizei hoje um book trailer amador para divulgar o livro O Rei Adulto, que foi postado no YouTube e também como vídeo nativo no Facebook.

Já há algum tempo estava fermentando essa ideia. Após assistir alguns book trailers no YouTube para elaborar o roteiro, encontrei esse tutorial da Dr.a Karen L. McKee do canal The Scientist Videographer.

O vídeo foi feito no iMovie e usa um modelo pré-definido (Fairy Tale). Usuários de iOS ou MacOS provavelmente já viram alguns desses recursos com outras imagens. É como uma apresentação de PowerPoint pré-pronta. Justamente por conta disso, temi que pudesse parecer um tanto batida. Felizmente, a maioria não usa um sistema Apple, e o formato se encaixava tão bem no tema do livro que resolvi arriscar.

Decidi usar como cenas as diversas ilustrações que tenho produzido para o blog e para cada capítulo. Algumas dessas imagens são inéditas neste blog e só foram postadas na fanpage www.facebook.com/OReiAdulto.

O resultado vocês podem conferir abaixo.



Gostou? Já comprou seu exemplar?

sábado, 17 de dezembro de 2016

Landau: a república infantil

O Mundo das Crianças nunca mais foi o mesmo após a Guerra das Águas, seu grande conflito de escala mundial. E uma das suas consequências foi a revolta e a instituição da primeira república de crianças: a República Infantil de Landau.


Landau é um "reino" diferente dos demais. Mesmo antes de se tornar uma república, já tinha essa fama de ser "do contra". Seu território nunca foi muito grande, e volta e meia acabava envolvido em conflitos e guerras iniciados pelos reinos vizinhos. Talvez por isso seus habitantes, os landaucos, cultivem grande desconfiança diante de forasteiros.

Inicialmente era um reino aliado de Tamma, até que este uniu-se a Ticch e passou a prescindir de aliados. Séculos depois, tendo de se defender sozinho, passou a ser espremido por Teres e Ístar, duas monarquias fortemente expansionistas, uma de cada lado. Principalmente durante a Guerra das Águas, tanto Teres quanto Ístar capturaram partes importantes do território landauco, que até hoje não foram devolvidas.

A revolução que derrubou a monarquia landauca teve início em Peniamesafrix, uma pequena cidade a leste da capital Gulatrax. Um menino agitado e rebelde chamado Brademir Hoxxa conseguiu direcionar à nobreza landauca a frustração da população mais pobre pela seca e fome causadas pela guerra. A revolução expatriou toda a nobreza e implantou um novo regime, baseado no voto universal para toda criança acima de seis anos. O receio de que os reinos vizinhos tentassem invadir e abafar a jovem república só fez aumentar a paranoia e desconfiança dos landaucos. Não é à toa que as demais crianças chamam os landaucos de esquisitos; em parte, porque eles são diferentes mesmo, mas também por estarem sempre suspeitando que estão sendo espionados.

Seu território é dividido em 4 províncias: Carusso do Norte, Carusso do Sul, Anguri e Hoxxa, esta última batizada em homenagem ao seu líder revolucionário. Grande parte do Carusso do Sul foi ocupada por Ístar durante a Guerra das Águas, compondo o tutelato do Carussuçu.

Além de Gulatrax e Peniamesafrix, outras cidades importantes são Forlante, Furapés, Porfim e Hólmen.

As cores nacionais landaucas são o vermelho e o amarelo. Seu brasão traz o famoso lema da revolução: Coniunctus Populus Nunquam Vincetur.

E justamente por serem sempre "do contra", a revolução continua viva em Landau, discutida e rediscutida por assembleias populares, em cada praça pública. Hoje se discute se os Pais podem aplicar castigos, amanhã se discutirá se é mesmo necessário tomar banho todo dia, e por aí vai.

Mas se você quer apenas aproveitar a paisagem, Landau oferece alguns atrativos inesquecíveis. A Campina Rubra, na fronteira tríplice entre Teres, Landau e Tamatich, é uma extensa planície de grama avermelhada e arbustos castanhos. O Pico Singular é a mais alta montanha das terras cartografadas pelas crianças. Muitos o escalam para realizar rituais alquímicos em seu topo, onde se abre uma cratera vulcânica. Mais para o sul temos o Bosque dos Acruxos, um tipo de árvore mágica que produz vários tipos de frutas diferentes; e a fonte de águas mágicas de Itororó, que dizem curar qualquer mal; entre outras...

Afinal, deve se lembrar daquela cantiga:

Fui no itororó
Beber água e não achei


Pois então, estava em Landau e nem sabia!...


A Guerra das Águas é descrita no primeiro apêndice do Vol. I de O Rei Adulto, publicado em ebook pela AZO Agência Literária

sábado, 10 de dezembro de 2016

Kousha e Estel em ilustrações

Duas novas ilustrações de O Rei Adulto foram finalizadas em novembro. Leia abaixo sobre como a composição foi feita.

Kousha de Calpulcra


O capítulo 5 de O Rei Adulto apresenta a fada-rainha Kousha, que se apossou da cidade de Calpucra, onde mantém uma corte de seguidores e fãs.

Escolhi para ilustrar a cena em que Êisdur, Wáldron, Harsínu e Marsena chegam à clareira onde há um festival em homenagem à Kousha.


No coreto, ao lado do rio Flafir, vemos Kousha ladeada por dois anões tagarelas. Várias crianças aguardam pelo seu pronunciamento.

Essa foi a composição mais trabalhosa das que fiz até o momento, especialmente porque a cena precisou ser construída a partir de várias imagens diferentes. O coreto usado na composição é o da cidade de São José do Rio Pardo. O rio com margem gramada fica em Riverview, na cidade de Richland, WA-EUA, fotografado por Russ1959. Mas as montanhas ao fundo provém de outra imagem, de autoria de Abel Leemans; foi necessário incluir as montanhas nevadas porque é essa a visão que se têm ao olhar ao norte através do rio Flafir em Calpulcra. A cerejeira é uma arte vetorial feita por Susannp4. Aquela à direita é proveniente da mesma imagem original, mas torcida com o filtro de deformação interativa do Gimp, para parecer diferente. Usei ainda, bem no cantinho esquerdo, a árvore solitária duma imagem de LoggaWiggler. As demais árvores e arbustos foram desenhados com pincéis próprios do Gimp.

As crianças no primeiro plano provém de duas imagens: uma mostra crianças num jardim de infância alemão, fotografadas por Westfale, e a outra mostra crianças alinhadas para a execução do hino americano, junto a um campo de beisebol, fotografadas por Keijj44. Em ambas as fotos, só aproveitei a postura das crianças. Tive de modificar as roupas, adicionar boinas, gorros, etc. O resultado mal lembra as imagens originais.

Para Kousha, usei uma combinação de quatro imagens: duas imagens da mesma modelo feminina fotografada por Adina Voicu: essa e essa; uma ilustração de elfa feita por Dina Dee; e asas desenhadas por Gordon Johnson. Os dois anões tagarelas foram compostos a partir da foto duma escultura de gnomo por Steve Buissinne

Ao fim, a composição teve suas cores intensificadas com a aplicação do filtro Boost Chromaticity do pacote GMIC/Gimp.

Estel del Baixo Goles


No capítulo 6, os jovens aventureiros chegam à fronteira entre Teres e o Tamatich, após enfrentarem estranhos acontecimentos. A primeira cidade tamatisca em sua jornada é Estel del Baixo Goles.

A cena ilustrada mostra Estel debaixo d'água, o que enche os aventureiros de apreensão, por estarem já alarmados com o que vinham encontrando na estrada. Pela descrição do capítulo, Êisdur e seus amigos estão em um ponto mais elevado e veem Estel no vale, ao lado do rio Lennx. Procurei manter todos esses elementos na composição.


A belíssima paisagem original dessa composição fica em Quiraing, Ilha de Skye, na Escócia, em fotografia de Frank Winkler. Inverti a imagem original horizontalmente, para reproduzir o relevo da fronteira entre Teres (mais elevado) e o Tamatich (mais baixo, à direita do rio). Incluí o rio, espelhando a imagem do céu e escurecendo ligeiramente as cores da água. Criei o alagado ao lado de modo similar e comecei a colocar as torres, telhados e topos das árvores acima das águas. Cada torre precisou também de reflexo sobre a água e sombra (segundo as sombras já existentes na imagem original). A ponte de pedra fica originalmente na Albânia, retirada desta fotografia de Dudva. Finalmente, incluí duas bandeirinhas com as cores do Tamatich, no mastro de duas das torres mais altas.


Gostou dessas imagens? Já leu o capítulo correspondente de O Rei Adulto? Deixe-nos um comentário sobre o que achou da história ou das ilustrações.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Mapas auxiliares para leitores do ebook

O Rei Adulto finalmente foi lançado ao público, em versão digital para Kindle. Mesmo que você não tenha um aparelho Kindle, poderá lê-lo no celular/tablet pelo aplicativo Kindle disponível na Apple Store, Google Store ou em seu próprio computador através do Kindle Cloud Reader, que roda sem problemas em Firefox, Chrome, Safari ou IE.

Devido à limitação do formato digital, os mapas podem não ser tão facilmente legíveis quanto numa versão impressa. O leitor pode usar este mapa auxiliar para localizar-se. O percurso da busca de Êisdur neste primeiro volume está demarcado em vermelho. Os números indicam o capítulo correspondente da história.



O volume 1 de O Rei Adulto termina em Lyrnyra. Eventualmente, muitas ações dos capítulos finais desta história podem ser melhor apreciadas com o apoio de um mapa da cidade, como o apresentado abaixo.


 Clique nos mapas para vê-los em melhor resolução.

Se já chegou ao fim do volume 1, comente aqui suas impressões.

sábado, 26 de novembro de 2016

O Rei Adulto Vol. I já está à venda na Amazon


A Agência Literária AZO acaba de publicar a primeira metade da obra O Rei Adulto. Este primeiro volume, que recebeu o subtítulo Oeste, pode ser adquirido por apenas R$ 9,90 em formato digital para Kindle, iPhone, Android e Cloud Reader. O primeiro capítulo e metade do segundo podem ser folheados e lidos gratuitamente aqui.

Este momento vem sendo anunciado desde que o blog foi aberto há alguns meses. Mas, para o autor, a espera foi muito mais longa. Começou em 1991, quando o livro começou a ser escrito; passou por 2001, quando chegou à conclusão, e depois por inúmeras tentativas, tímidas ou teimosas, de viabilizar sua publicação. Durante esse tempo, não houve um amigo ou amiga próximo que não soubesse ao menos uma parte da história e desse projeto. Meu próprio filho nasceu quando a história já estava pela metade e cresceu ouvindo trechos em momentos oportunos. Cheguei até a criar um importante personagem para o livro enquanto o ninava para dormir, em seu primeiro ano de vida.

Gostaria de agradecer ao trabalho de Fernando Cardoso e Mariana Carbas, da agência AZO, que viabilizaram a publicação, e do Prof. Clóvis Luiz Alonso Júnior, que fez uma detalhada revisão linguística entre 2005-2006. Algumas outras pessoas também precisam ser mencionadas, porque estiveram ligadas mais diretamente a este projeto durante os anos anteriores, quando eu ainda buscava meios de publicá-lo: Rita de Cássia Boccato, Emanuel Gonçalves Dutra e Thaís Quintella de Linhares, bem como alguns dos meus primeiros leitores-teste, ainda do período 1992-2002: Flávio da Silva Costa, Maria Cristina Favoreto, Bárbara Silva Israel, Alex Cavaliéri Carciofi e Ida Arnold. Agradeço também a todos os demais parentes, amigos, colegas, alunos e ex-alunos que apoiaram esse projeto.

O segundo volume, que conclui a obra, deve ser lançado em 2017. Enquanto isso, material adicional continuará a ser publicado aqui no blog e na fanpage.

Espero que se divirtam com a leitura, tanto quanto eu me diverti com sua escrita!

A ilustração acima é uma composição de duas gravuras em domínio público com permissão de modificação. O desenho das crianças diante do cartaz foi disponibilizado pela The Library of Congress por Dawn Hudson. A gravura do cavaleiro medieval provém do manuscrito Beinecke MS.229 Arthurian Romances Folio 326R, que data do último quarto do século XIII. A tipografia usada é Antique Shop Fancy e Copperplate Gothic Light.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Cenas dos primeiros capítulos

O comércio em Baltar, o balé da Cumacanga, o desafio ao Nuncanão e a busca de Fides são cenas dos quatro primeiros capítulos de O Rei Adulto. Por serem ricas em ambientes e personagens que cativam a imaginação, histórias de fantasia costumam ser acompanhadas por ilustrações que se tornam tão conhecidas quanto as cenas que as inspiraram. Quem nunca viu as ilustrações de Alice no País das Maravilhas ou de O Pequeno Príncipe? Há ainda o caso de histórias que nascem das ilustrações, como Dinotopia, de James Gurney.

Mas boas ilustrações requerem habilidade e anos de formação. Felizmente, para leigos e diletantes como eu, alguns programas de computador para manipulação de imagens contêm recursos suficientes para produzir ilustrações razoáveis. O mais conhecido desses programas é o Photoshop. Eu uso o GIMP, que é tão poderoso quanto, gratuito e segue a filosofia do código aberto.

Para sanar essa crônica falta de habilidade e firmeza no traço, decidi fazer composições com partes de imagens e fotografias distribuídas sob a licença Creative Commons, modificadas aqui e ali para se adequarem à história que retratam. A composição é posteriormente degradada e tratada como aquarela, para diminuir os eventuais defeitos da junção de imagens de origens distintas, antes de ser postada na fanpage. Porém, as originais são igualmente interessantes, e um tanto mais nítidas, como poderão ser vistas abaixo. Além disso, é preciso dar crédito às fotografias e técnicas usadas, o que não é possível fazer de forma apropriada nas imagens distribuídas pelo facebook.

Uma rua de Baltar


Baltar é a cidade mercantil onde a história tem início. O protagonista, Êisdur, chega à cidade em busca de seu irmão mais velho, em pleno dia de feira. A imagem retratada é a justamente a do primeiro parágrafo de história: "Começava um novo dia de feira em Baltar. Em ocasiões como essa, a cidade era tomada por flâmulas coloridas, desfraldadas das janelas dos casarões mais nobres."


A imagem original é uma fotografia feita por Julia Casado. Apaguei as antenas de televisão no topo dos prédios e demais elementos modernos, adicionei as flâmulas, mudei letreiros, coloquei uma iluminura medieval como se fosse um grafite numa das paredes, e lá estava Baltar.

O balé da Cumacanga


A composição de uma rua de Baltar estimulou-me a tentar ilustrar cenas dos capítulos seguintes. Seguindo a ordem, escolhi para a próxima composição o momento em que Êisdur segue em busca da Cumacanga para perguntar-lhe se ela sabe onde vive o Rei Adulto. A bruxa está bailando sobre um lago, apaixonada pelo próprio reflexo, e não gostará nem um pouco de ser perturbada.


Essa composição foi mais simples, embora visualmente me agrade mais que a anterior. A silhueta do menino é de uma fotografia de meu filho aos 7 anos de idade. O lago que serviu de base é uma fotografia tirada por EMM para o Blue Lake Free Press (o máximo que consegui descobrir). Tanto o céu, quanto as margens foram modificadas, pus uma árvore no plano da frente, grama, iluminação por conta da luz das chamas da Cumacanga, etc. 

O desafio ao Nuncanão


No capítulo 3, Êisdur e Wáldron são desafiados pelo Nuncanão, o anão que nunca fala não. Depois é sua vez de desafiá-lo. Eles o encontram de pijama, com seu castelo flutuando em cima de uma nuvem baixa.


A imagem de fundo é uma fotografia tirada no parque Yosemite por Unsplash. As montanhas no mundo representariam os Montes Baixos, junto aos quais Êisdur e Wáldron se encontram no momento em que são perturbados pelo Nuncanão. O castelo ao fundo é uma arte vetorial criada por Susannp4. O Nuncanão saiu de uma fotografia feita por Hans Braxmeier em que, curiosamente, figura um anão de pijama em porcelana.

Para essa composição: eliminei o casal que aparece na fotografia do parque Yosemite; adicionei os pássaros e as nuvens e trabalhei com mais detalhe para que o castelo e as nuvens se misturassem bem; modifiquei o anão de porcelana para que ficasse mais próximo ao Nuncanão; modifiquei as cores da imagem para que parecesse ser noite; incluí neblina no primeiro plano e na floresta ao fundo.

Fides e o carro do Sol


No capítulo 4, Êisdur e Wáldron já se encontraram com os irmãos Harsínu e Marsena. Em sua parada para dormir, à noite, fazem uma roda de histórias junto à fogueira e cada um conta um pequeno conto. O conto narrado por Marsena é sobre como Fides busca o pó das estrelas para curar a cegueira da menina por quem é apaixonado. A busca de Fides o leva a várias aventuras, mas a que mais gosto, talvez por ser astrônomo, talvez por ser uma referência direta ao mito grego do filho de Hélio, é quando ele usa o carro do Sol para tentar chegar perto das estrelas.


Essa composição foi feita com a mistura de dois fundos de tela. Pelo que consegui apurar, a imagem do céu estrelado foi feita por Aslinah Safar, em Alberta, Canadá. Até o momento não consegui descobrir o autor da outra imagem. O carro do Sol foi construído após muita modificação numa fotografia de Lynn Greyling, que mostra pequena escultura em metal de biga grega. 

Para essa composição, trabalhei com camadas de diferentes opacidades de modo a colorizar os cavalos e criar a aura em torno do carro e de Fides. As chamas foram criadas com ajuda desse tutorial produzido por Billy Kerr. Por sinal, o mesmo efeito já tinha sido usado para os cabelos da Cumacanga, acima. Para Fides, busquei fotografias, mas não encontrei um modelo na postura adequada e acabei desenhando o rosto e corpo à mão.

Próximos capítulos


Como o livro possui 42 capítulos, não sei se conseguirei tempo e ideias para ilustrar todos. Tentarei, aos poucos, talvez pulando a ordem, pois dependerá de ter ideias para a composição, e descobrir a técnica correspondente para o efeito desejado no GIMP.

Cabe aqui uma pequena curiosidade: toda a história desse livro teve início em um pequeno desenho que fiz em 1991. Embora esse desenho não ilustre a busca de Êisdur propriamente dita, ele apresenta alguns elementos que vieram a ser incorporados na narrativa: o fim da infância, os brinquedos abandonados, o rio das Lágrimas e os Montes Altos. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Teres: sossego ou aventura, faça sua escolha!

A fronteira do mundo explorado pelas crianças fica em Teres! Ao menos, é assim que os terenses gostam de dizer a quaisquer forasteiros que cheguem em Baltar, sua maior cidade e, também, seu famoso centro de comércio.


Essa fronteira é o Ringue, parte do Sul Ignoto, uma terra erma e perigosa, onde ainda habitam dragões, bichos-papões e monstros pavorosos. Poucos se arriscam a aventurar-se por lá, e menor ainda é o número daqueles que, lá tendo ido, conseguem retornar. O próprio Ringue é uma planície semidesertificada, a qual, segundo a lenda, foi caustificada durante uma épica luta de dragões, séculos e séculos atrás. 

Mas uma coisa é verdade: foram as crianças de Teres que deram início à exploração do Sul Ignoto e souberam transformar suas expedições em caravanas de enorme sucesso comercial, que deram um impulso decisivo ao crescimento de Baltar, atraindo para lá aventureiros de toda espécie. As tabernas de Baltar são o primeiro lugar a visitar, se precisar montar seu próprio grupo de caça ao tesouro.

Apesar disso, Teres também é conhecida por seu isolamento. A capital, Venânsi, fica no extremo oeste do mundo das crianças, separada dos demais reinos por uma floresta ao norte, montanhas a leste, deserto ao sul e oceano a oeste. Isso deu-lhes uma fama de caipiras e interioranos, que é ainda mais reforçada pela predominância de sossegados pastores e agricultores nos Prados do Alimão e nas partes menos elevadas dos Montes Baixos.

Com o passar dos séculos, Teres pelejou contra e anexou vários reinos vizinhos, chegando aos dias atuais como o segundo maior reino infantil em área.

As províncias terenses foram batizadas segundo características geográficas ou históricas:

  • Prima (a região onde Teres surgiu) 
  • Bela (caracterizada por lindas cachoeiras, ao sul dos Montes Baixos)
  • Montana (a parte principal dos Montes Baixos)
  • Fidela (a mais leal de todas as províncias, baluarte contra invasões ao reino)
  • Arbórea (junto ao Bosque Esquecido), Gnômia (habitada majoritariamente por gnômos, elfos e outras criaturas fantásticas)
  • Remota (a mais distante da capital), Deserta (junto ao Ringue)
  • Anátema (a província mais rebelde e encrenqueira, antigo território de Tamma)
  • Alto Goles (a parte mais elevada da província tamatisca do Goles, onde se situa a Floresta Vermelha; território em litígio com o Tamatich)

Suas cores nacionais são o azul e o branco. Tanto a bandeira, quanto o seu brasão, trazem uma cruz amarela. A cruz representa, na verdade, como Teres se vê: no centro das rotas que partem para o norte, o sul, o leste e o oeste.

De modo geral, todos os terenses falam o sulino. Mas, em Anátema, os descendentes dos antigos tammanos só falam o neotamano ou, ainda, passaram usar o tammanor como sinal de resistência cultural ao domínio de Venânsi. Isso tem criado muita dor de cabeça para a Ordem dos Cavaleiros de Baltar, que tenta abafar as revoltas e impedir a independência da região. Porém, se você quiser ouvir um idioma realmente extravagante, composto unicamente por consoantes, deve ir a Chrmst Flks, a cidade dos coboldes.

Busque você aventura ou sossego, seu lugar é Teres!

sábado, 15 de outubro de 2016

Mil curtidas

Marcos devem ser comemorados! Hoje à tarde uma postagem da fanpage O Rei Adulto atingiu a milésima curtida e não posso deixar de dizer o quanto isso é empolgante.


Quando decidi dar início a este blog, visando tornar mais conhecida a história que escrevi, não tinha ainda ideia muito clara do que incluir como conteúdo. Parte de mim queria usar o espaço para expandir o mundo de Fantasia, incorporando lendas e descrições que não foram usadas no livro. Mas isso esbarrava num problema: o livro ainda não está sendo comercializado e somente umas cinquenta pessoas tiveram acesso à edição independente. Eu corria o risco de esmiuçar um universo conhecido apenas por poucos iniciados.

Então, optei inicialmente por investir mais na divulgação da história, tomando cuidado para evitar qualquer spoiler. Daí vieram as postagens sobre os bastidores da escrita (A história por trás da estória I, II e III), minhas fontes de inspiração literária e a série de apresentações de cada reino individual (por enquanto, publicada apenas para Guaipur e Tamatich).

Não deve ser novidade para muitos leitores que a era dos blogs ficou para trás. Hoje grande parte das notícias e novidades da internet acaba sendo disseminada pelo Facebook ou Twitter. O blogspot é uma plataforma muito atrelada a essa antiga era dos blogs, que disseminava conteúdo através da rede de blogueiros e blogs recomendados. Para minimizar esse problema, criei a fanpage O Rei Adulto no facebook para distribuir o conteúdo deste blog, além de compartilhar postagens relevantes de outros autores ou veículos.

Todavia, cada plataforma de rede social tem seu público e sua identidade própria. Se a postagem no blogspot deve ser enriquecida por texto, comentários e reflexões, para ter algum sucesso no Facebook, é preciso usar e abusar dos recursos visuais e das chamadas curtas.

 

A busca por leitores potenciais no Facebook me estimulou a aprender mais os recursos do Gimp de modo a criar imagens que transmitam o espírito da história. Foi uma dessas imagens, apresentada no topo desta postagem, que chegou à milésima curtida. É este também o motivo de as postagens no blog estarem mais escassas nas últimas semanas.

Se tudo correr dentro do cronograma previsto, o primeiro volume (de dois) de O Rei Adulto será lançado até o fim do ano em formato kindle pela agência literária AZO. Tenho esperança de que uma grande parte das curtidas a essas cativantes imagens de divulgação virem leitores satisfeitos pelo conteúdo do livro.

Você também pode ajudar na divulgação convidando seus amigos leitores de Fantasia a conhecer esta página!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Tamatich: o reino dos contos de fadas

Nenhum reino infantil é mais tradicional que o Tamatich. Lá ainda se encontram cavaleiros, damas e comendadores de várias ordens nobiliárquicas, além de pajens, varletes, aias, magos e menestréis, envolvidos em histórias, façanhas e contos que muitas crianças já esqueceram.


Esse grande apego a valores do passado e aos gostos e artes refinados frequentemente leva as crianças do Tamatich — os chamados tamatiscos — a se sentirem superiores às demais crianças dos outros reinos, por julgarem que o Tamatich será sempre o mais poderoso e influente reino de seu mundo. Vem daí a má fama de esnobes e arrogantes que os tamatiscos têm fora de suas fronteiras.

A origem desse sentimento de superioridade remonta à própria formação do reino. Há vários séculos atrás, dois reinos rivais de igual poderio, Tamma e Ticch, gladiavam constantemente um com o outro em infindáveis guerras de bolas de neve, de lama, de frutas e de ovos podres — a depender da estação do ano. Até que o romance clandestino entre um príncipe tammano e uma princesa ticca levou à inesperada união dos dois territórios, criando o reino do Tamatich, uma potência insuperável à época.

Reflexos dessa união territorial de povos rivais ainda são encontrados: há dois idiomas oficiais (neotamano e nortenho), duas capitais (Laleila e Paço), duas escolas filosóficas clássicas (Doma e Verna) e uma silenciosa animosidade entre as crianças provenientes de ambos os antigos territórios rivais.

Mesmo a bandeira tamatisca mostra essa dualidade: as cores oficiais do Tamatich, vermelho e verde, eram, cada qual, as respectivas cores de Tamma e Ticch. O brasão traz ainda o unicórnio dourado, representando o elo do reino com a fantasia infantil.

No Tamatich, as províncias recebem o nome de cores, mas como eles são tradicionalistas, usam nomes um tanto preciosistas ou arcaicos para essas cores: Blau, Doiro, Nívea, Sinople, Goles, Sable e Argenta.

Há muitos locais interessantes neste reino. O mais belo e célebre deles é a Floresta Vermelha, junto à cidade e lago de Estel. É chamada dessa forma porque suas árvores têm folhas de tons quentes, entre amarelo e vermelho escuro, como se ali sempre fosse outono. A coloração dessa floresta faz par aos Prados Azuis, situados ao Norte: uma extensa campina de grama verde-azulada.

Os mais valorosos irão se divertir com os torneios de justa em Verna ou se assombrar com o fantasma do gigantesco castelo de Valindo. Mas se o fascínio é o que te guia, poderá encontrar fadas, silfos e outros seres mágicos na Floresta Velha ou nas Pirâmides de Ferro, recitais de cravo e alaúde em Doma e Paço, ou ainda visitar as fantásticas fábricas de chocolate de Evena.

Só não se esqueça de levar seu escudo, espada e armadura!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Guaipur: o reino do mar

Ahoy, jovem marujo! Pronto para desfraldar a vela de sua embarcação e sair em busca de mais uma ilha perdida a Oeste? Então seu lugar é Guaipur, o reino onde as crianças têm mais olhos para o mar do que para a terra sob seus pés.

Guaipur situa-se a noroeste do mundo mirim, e faz fronteira com Teres, ao sul, e com o Tamatich, a leste.

Sua capital é Uríano, onde se encontra o maior dos portos. Ela foi fundada pelo lendário Fides junto à confluência dos rios Mandubrim e Guaipur, após sua longa viagem pelo oceano ocidental em busca do pó das estrelas.

Outras cidades importantes de Guaipur são Santor, Gáprala, Bevedir e Rurobriga. São nove as províncias em que o território está dividido: Condado, Selúnia, Costa Norte, Costa Sul, Terradentro, Riacima, Púrpura, a Ponta do Alfageme e o Arquipélago dos Corsários. Quase todos seus habitantes se expressam no falar nortenho, embora se ouça algo do sulino e do tammanor, ao sul.

Quem nasce em Guaipur é chamado de guaipurino. A relação dos guaipurinos com o mar é tão intensa que foi retratada na bandeira e no brasão do reino, ambos os quais exibem um sol poente sobre ondas douradas: uma das imagens tipicamente vistas a partir das praias guaipurinas. As cores nacionais são justamente o azul e o laranja.

A costa de Guaipur é marcada por paisagens variadas: manguezais frios ao norte, seguidos por praias arenosas, falésias, baías cercadas de montanha e floresta e, finalmente, costões marinhos de tirar o fôlego. Há muito o que explorar com sua tripulação! E se piratas surgirem em seu encalço, siga a todo pano e confie na sorte, pois alguma enseada que lhe esconda pode estar logo ao dobrar o cabo.

Mas caso se canse do mar, poderá se embrenhar no Bosque Esquecido em busca de doces frutas, acampar na Costa Sul, caçar borboletas nos Campos em Flor, descer a correnteza num barril em Desce-Pedras, banhar-se na Serra das Cataratas, e muito mais!

O que espera para embarcar?

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A Guilda dos Cartógrafos

Há pouco menos de um ano, descobri um fórum de internet chamado Cartographer's Guild, que reúne amantes de Cartografia, tanto de mundos fictícios de Fantasia e Sci-Fi, quanto do mundo real. O fórum é dividido em tópicos que cobrem vários aspectos da Cartografia amadora, desde mapas regionais/continentais, a mapas de cidades e de jogos de tabuleiro, toponímia e linguística, além de haver desafios periódicos lançados aos membros para a apresentação de seus projetos cartográficos.

Uma das atrações do fórum são os diversos tutoriais para os principais aplicativos gráficos (Photoshop e GIMP). O forista Ravelis mantém um tópico especialmente voltado para rascunhadores de mapas fantásticos: o Quickstart Guide to Fantasy Mapping.

Diante de tantas opções de tutoriais e ideias novas, resolvi não escolher muito: baixei o primeiro tutorial da lista de Ravelis -- Hand Drawn Mapping (For the Artistically Challenged), criado pelo forista Gidde -- e dediquei-me a adaptar o mapa de O Rei Adulto para esse estilo, que emula um mapa antigo confeccionado a mão.

A rigor, tenho mapas desenhados a mão, como mencionei noutra postagem. Porém, queria aprender técnicas novas no GIMP, bem como produzir um mapa geral que eu pudesse ampliar e ainda assim ter um bom detalhamento. Após umas 60 horas de trabalho, no fim de diversas noites e começos de madrugadas, eis o resultado:


O mapa possui 20 MB. Ao clicar na imagem acima, apenas uma versão de baixa resolução é mostrada. Para ver/baixar o mapa com a resolução original, clique aqui.

A melhor maneira de aprender algo é praticar. No meu caso, praticar o uso do GIMP, que à primeira vista parece muito confuso e inamistoso ao usuário. Um mapa elaborado como esse é produzido pela combinação de diversas camadas: uma para as montanhas, outra para as cidades, outra ainda para a textura, etc. O resultado final levou cerca de 60 horas por conta da inexperiência e da quantidade de camadas. Tudo no tutorial foi novidade para mim; o que acabou servindo como distração às notícias cada vez mais angustiantes desse agosto-setembro.

Agora é hora de escolher um novo tutorial da lista e aprender algo mais do GIMP, pois a situação brasileira não irá se definir tão cedo...

No detalhe do mapa, Eix e a cidade de Lize, em Ístar, palco de eventos curiosamente similares a alguns do Brasil de 2016, embora tenham sido escritos em 2001.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Dois filmes e uma ideia

Quem conta um conto, aumenta um ponto. É o que diz o ditado. Nada mais verdadeiro acerca das histórias. Elas se fundem e se repartem, influenciando-se mutuamente em busca de novas expressões para representar velhos conhecimentos, tão antigos quanto a vida, que passamos adiante às gerações.

A História Sem Fim pode ter sido o catalisador que me instigou a escrever o Rei Adulto. Mas um elemento fundamental do cenário em que costurei a narrativa foi inspirado em dois filmes de gêneros bem distintos, ambos os quais apresentam uma sociedade composta apenas por crianças.

Quando comecei a escrever a história, tinha em mente uma sociedade algo que similar a das crianças perdidas do filme Mad Max 3 Além da Cúpula do Trovão (1985):


Neste filme, crianças abandonadas após uma guerra devastadora unem-se numa espécie de tribo, dividindo entre si as diversas tarefas típicas de adultos, cuidando uma das outras, enquanto se seguram a uma lenda acerca de um salvador vindouro.

Inicialmente, imaginei um contexto em que o protagonista viria de uma região fronteiriça abandonada pelos adultos, lideraria um grupo de aventureiros imaturos como ele e demonstraria seu valor ao matar um dragão que ameaçava uma cidade distante, esta sim habitada por adultos.  Como expliquei noutra postagem, essa ideia inicial não se desenvolveu muito bem e transmutou-se para uma representação mais alegórica do processo de amadurecimento, seguindo um típico mito do heroi.

Apesar disso, elementos desse cenário persistiram no início da narrativa: a cidade inicial Baltar fica numa região fronteiriça a um deserto; e logo no começo da história somos informados que as crianças ao crescerem deixam aquele mundo: "eles se vão", como é dito ao protagonista, o qual chega inclusive a adquirir uma adaga especial contra dragões, na feira de Baltar, por precaução quanto ao que sua jornada o fará encontrar.

A ideia de uma sociedade composta apenas por crianças levou-me a considerar descrever o próprio mundo infantil em si mesmo, aquele que se desenrola na imaginação de crianças, por cujo olhar ele seria a tradução do mundo real.

O tom apropriado para essa sociedade veio, todavia, de outro filme: Quando as Metralhadoras Cospem (1976). Essa produção inglesa mostra uma história de gangsters nos anos 20 encenada integralmente por crianças. As situações típicas da vida adulta são adaptadas à infância e o resultado é magistralmente divertido: as armas dos bandidos e mocinhos disparam bolas de pingue-pongue e tortas, os automóveis são meras carcaças movidas a pé, que lembram os carros dos Flintstones.

No Rei Adulto, essa graça e leveza de Quando as Metralhadoras Cospem se misturaram à representação de sociedade independente das crianças de Mad Max 3 e o resultado é um mundo de fantasia mítica, em que as flechas têm ventosas nas pontas ou trouxinhas de pó de mico, os bacamartes disparam rolhas, os malandrinhos apostam alto no jogo do bafo-bafo, as paredes dos palácios reais são decoradas com creiom e aquarela, entre outros.

Caso nunca tenha assistido Quando as Metralhadoras Cospem, não se faça de rogado:


domingo, 4 de setembro de 2016

A história por trás da estória. III

As diferentes regiões do Mundo das Crianças foram caracterizadas por falares ou dialetos próprios. Esses falares são usados apenas nos diálogos e ajudam a construir o cenário subjacente à trama. A decisão de incluí-los no texto foi fruto de outro longo processo de reflexão e experimentação.

Nos Apêndices de O Rei Adulto apresento seis principais falares/idiomas: o Sulino, o Nortenho, o Neotamano, o Tammanor, o Gandaio e o Abanheenga. Além desses, menciono como falares restritos a comunidades mais reduzidas o Alto Terense, o Astórgico, o Narônico e o Calô. A Lingua do Pê seria um idioma infantil à parte, usado apenas em situações de espionagem ou festivais. Além disso, certos personagens usam idioletos bem marcados.

Em meus manuscritos produzidos entre 1991 e 1997 não havia nenhuma distinção nos falares das crianças de cada reino, nem tampouco idioletos. Toda essa variedade linguística foi introduzida a partir de 1998, devido a dois "ganchos" deixados no manuscrito:
  1. Em 1992, fiz a primeira divisão dos reinos em províncias e escolhi nomes de cores para as províncias tamatiscas. Os nomes da maioria dessas cores foram tirados da heráldica, e não do vocabulário comum do português. Ex: goles (em vez de vermelho), sinople (em vez de verde), etc. Essa escolha foi justificada face um suposto conservadorismo das crianças tamatiscas em comparação às demais.
  2. Meses depois, descrevi as crianças que vivem na floresta de Grínkor: o povo da mata. Provavelmente por influência cultural, representei-os com um quê de índios sulamericanos.
Foi a partir da relação identitária que estabeleci entre o povo da mata e índios que me vi instigado a representar seus diálogos num idioma diferente. Em vez de usar um idioma artificial e completamente arbitrário, decidi que usaria o próprio Tupi Antigo nesses diálogos, como uma forma de valorizar a cultura brasileira. Essa tarefa teve início em 1998, estimulado pela aquisição do recém-lançado Método Moderno de Tupi Antigo, do Eduardo Navarro, que estudei a fundo com o propósito de escrever diálogos tupis gramaticalmente corretos. Nos anos seguintes ampliei o estudo do Tupi Antigo a partir de livros de Lemos Barbosa e Frederico Edelweiss, encontrados em sebos ou na biblioteca da FFLCH/USP.


À época também estudava Alemão e aperfeiçoava a fluência em Esperanto. Estava cada vez mais interessado em Linguística. E um dos livros da FFLCH que acabou prendendo minha atenção foi Estruturas Trecentistas, da Rosa Virgínia Mattos e Silva, que apresentava uma "gramática" do Português de 1300. Emprestei o livro e comecei a lê-lo por mero interesse intelectual. Ao cabo de alguns meses, adquiri um exemplar dele, bem como algumas gramáticas históricas da Língua Portuguesa.

Quanto mais o estudava, mais me perguntava se não poderia também usar o Português Antigo em algum trecho do Rei Adulto. Seria algo associado aos tamatiscos, devido ao seu gosto mais tradicionalista e conservador. Todavia, por essa época, eu já tinha claro que o Tamatich fora formado pela união dos reinos rivais de Tamma e Ticch, um rigidamente espartano e o outro hedonista e filosófico. O Português Antigo não se encaixaria bem na boca de um ticco, mas se adequaria perfeitamente aos tammanos. Ainda assim, considerei que longos diálogos em Português Antigo poderiam soar incompreensíveis ao leitor, devido à quantidade de palavras arcaicas que seria preciso empregar. Por isso, decidi por algo intermediário: um falar artificial, que conteria uma mistura arbitrária de diversas formas gráficas da história da Língua Portuguesa, isto é, seguiria parcialmente a gramática trecentista, teria escrita etimológica, alguns arcaísmos, acentuação gráfica já abolida, entre outros. Assim nasceu o "Neotamano":

— Devemos invadir Ístar e aprisionar tôdalas creanças que usam taes imanes porcarias!

Criei o Neotamano para permitir o uso de algumas estruturas gramaticais antigas, sem prejudicar muito a compreensão da frase. Ele é explicado no universo da história como um falar de compromisso surgido da convivência forçada entre ticcos e tammanos, após a unificação do Tamatich. O Neotamano seria uma evolução do Tammanor, o qual representaria exclusivamente o Português de 1300 e que ficou reduzido a curtos diálogos, que empregam palavras reconhecíveis, ainda que em roupagem arcaica:

 — Deueras importamte, cõ seu perdom. Uossa Ualentia importars’ia de a meu jrmãao mays nouo padrĩhar, qual jrmãao emcorporado aa guarda paaçal oje sera?

Os demais falares surgiram em consequência dessas decisões de incorporar à caracterização dos reinos infantis variantes linguísticas. Assim, tomei o rio Lennx como a grande fronteira linguística natural entre o Sulino e o Nortenho, representados pelos Português Brasileiro e Europeu, respectivamente:

— E eu cá dou de baldar-me justamente quando as coisas começam a ficar divertidinhas? (Nortenho)

— Com’é, não vai me dizer que bicho é esse que leva três semanas pra ser pego por mais de uma dúzia de guris? (Sulino)

Para o Gandaio usei uma modalidade de português informal bastante oral, carregada de gírias, praticada em áreas pobres do sudeste brasileiro:

— Fui só dá um rolé na cidade pra achá algo de comê. Mas os trol viu eu e me cegô dinovo. Logo passa, toda’ zas vez foi ansim. 

Mesmo dentro do Sulino e do Nortenho, espera-se alguma variação ao longo de cada reino, embora mais suave. Destas, a mais evidente fica por conta do Nortenho usado pelos macebóis, que se inspira na ordem sintática e em derivações lexicais do Alemão adaptadas ao Português Europeu, como se fossem crianças que pensam em Alemão mas falam em Português:

— Venho-lhe sopedir que aos viajantes que seus guardas hoje nos limites da floresta aprisionaram liberte.

Uma ordem sintática não natural ao Português também foi usada nos diálogos de crianças do povo da mata quando elas se expressam em Nortenho. Nesse caso, uso ordem sintática e estilo do Tupi Antigo, como se fossem erros naturais de um falante que se expressa em idioma diferente do materno:

— Vos ter como hóspedes nos honra muito. Ficai todo o tempo de vosso querer.

A tabela mostra uma comparação ligeira entre os quatro principais falares da história:

Nortenho Sulino Neotamano Gandaio
mesmo para um cavaleiro mesmo pra um cavaleiromeesmo pera um cavalleiro mermo prum cavalero
Não o conheçoNão o conheçoNom no conoscoNum conheço ele
Fá-lo-ei Vou fazê-loFal-o-ei Vô fazê iss'aí
Também eles se calaramEles também se calaramTambém elles calárom-seEles tumém se calaro
Não há perigoNão tem perigoNom há peligroNum tem pirigo
 O que fazeis aqui?O que fazem aqui?O que acá fazeis?Quê que cês faz aqui?

No mapa abaixo, vê-se a distribuição espacial desses falares no Mundo Mirim:


sábado, 27 de agosto de 2016

A história por trás da estória. II

A maioria das histórias de fantasia envolve mapas, especialmente quando se desenrolam em mundos fictícios. O grande modelo deste gênero, às vezes chamado de Alta Fantasia, foi Tolkien, que desenvolveu em profundidade seu universo, interligando cronologia, raças, idiomas e cultura num rico contexto mitológico.

No primeiro artigo desta série, descrevi como a narrativa de O Rei Adulto foi sendo lentamente desenvolvida em paralelo a eventos da minha vida pessoal. Neste, contarei um pouco sobre a gradativa construção do mapa deste mundo.


Comecei a escrever sem um mapa, em 1991. Afinal, toda a ação de início estava centrada em uma única cidade, que chamei de Birtad (atualmente, Baltar). O primeiro mapa foi rascunhado poucos dias após eu começar a escrever, para representar os topônimos que eu ia criando ao longo dos diálogos. Tal mapa surgiu como uma necessidade para que eu não me perdesse, evitando erros de continuidade, bem como para me guiar com ideias acerca das regiões que poderiam ser exploradas pela aventura.

O primeiro mapa foi feito numa folha de caderno universitário, assim como o texto vinha sendo escrito. Vem daí seu formato retangular característico, que optei por não mudar depois. Nele o Mundo Mirim só tinha fronteira bem estabelecida a Norte, no rio das Lágrimas. Nas demais direções, o mapa não se encerrava, dando a entender que poderiam haver novas terras ou reinos infantis à leste, sul e oeste. Posteriormente, aumentei o litoral a Oeste e adicionei um deserto ao Sul, ficando o Leste limitado por montanhas além das quais nada se conhecia (ao menos entre as crianças do Oeste). O mapa era muito grosseiro, feito em uma única cor, o que logo o tornou de difícil consulta. Decidi substituí-lo por outro um pouco mais elaborado, em que as cores me ajudavam a diferenciar cidades, províncias, reinos, estradas, florestas, etc. Acabei descartando o primeiro mapa, mas guardei todos os seguintes.

Um mapa de mundo imaginário não se constrói inteiro de um dia pro outro. Especialmente no caso em que a história ainda está sendo elaborada, o enredo levará a mudanças que podem afetar a disposição dos elementos de relevo ou os topônimos. Quando o mapa é desenhado pela primeira vez, há uma mundo inteiro a ser nomeado; frequentemente os topônimos disponíveis são mais numerosos do que aqueles que serão efetivamente usados na narrativa. Nesse momento, é muito fácil escolher topônimos que posteriormente nos parecerão insossos, ingênuos ou desagradáveis. A solução é mudá-los por outros que nos soem melhor. Com isso, o mapa acaba precisando ser emendado e corrigido. Em pouco tempo, ele se torna novamente confuso e um outro mapa precisa ser feito, incorporando todas as modificações, as quais também precisarão ser registradas em listas para permitir a consulta frequente e evitar erros de continuidade na narrativa.

Desta forma fui criando um terceiro mapa em 1992, mais enxuto, e depois um quarto mapa -- esse maior e bem mais detalhado, que me guiou na construção da narrativa entre 1993 e 1999.

Em 1997, a aquisição do meu primeiro computador pessoal me levou à digitar toda a história então manuscrita; e comecei também a experimentar produzir outros mapas com a ajuda de algum software gráfico. Dei atenção a mapas "históricos" e regionais, que ainda não tinha desenhados à mão.


Por serem posteriores ao "quarto mapa", os mapas regionais acabaram tendo um pouco mais de detalhes. Um desses mapas regionais, o de Ístar, guiou-me nos capítulos finais escritos entre 1999 e 2001.


Finalmente, em meados de 2001, produzi os mapas desenhados a nanquim que foram incorporados às duas edições independentes já feitas.


Mas mesmo depois de tantos anos, ainda me vi modificando um ou outro topônimo desses mesmos mapas já em sua versão digitalizada... Tolkien também anotou e modificou seus mapas diversas vezes antes de publicá-los. Criar mundos pode ser divertido, mas não é simples. Ao menos, temos mais do que meramente o sétimo dia para descansar e refletir sobre as próximas mudanças.

domingo, 7 de agosto de 2016

A história por trás da estória. I

Um história de Fantasia épica, escrita em português, ambientada num mundo povoado apenas por crianças? Como surgiu tudo isso?

Às vezes causa surpresa a amigos, alunos e colegas de profissão a revelação de que escrevi um livro de Fantasia. Essa surpresa é ainda maior quando atentam para o tamanho do livro (242 mil palavras) e para o período em que ele foi escrito: ao longo de 10 anos, entre 1991 e 2001. Durante a década do desenvolvimento desse projeto, três grandes, imprescindíveis, etapas da vida acadêmica, tomaram meu foco elaborativo: o TCC do curso de graduação, em 1993; a dissertação de mestrado, em 1996; e a tese de doutorado, em 2000.

Em postagem anterior, expliquei que O Rei Adulto começou a ser escrito após eu ler A História Sem Fim, de Michael Ende. Antes disso eu já escrevia poesias e alguns contos e vinha tentando elaborar alguma história mais longa, mas invariavelmente não conseguia desenvolvê-las além de algumas páginas. À época, eu jogava RPG e, inspirado pelo livro de Ende, cogitei escrever uma aventura sobre um menino que enfrentaria dragões -- um tanto clichê, é verdade... Mas aconteceu algo diferente: a estória que eu comecei a rabiscar ganhou asas e foi fluindo, tomando um rumo próprio, afastando-se dos dragões. Eu senti que cada personagem, de certo modo, tinha vida própria e fui deixando que suas personalidades se manifestassem e me conduzissem. 


No primeiro ano, eu manuscrevia a estória nas folhas não usadas dum caderno universitário. A imagem acima é uma fotografia da primeira folha desse manuscrito, juntamente com um índice preliminar que eu ia completando à medida que novos capítulos iam sendo elaborados. Muito dessa primeira folha foi aproveitado na versão final de O Rei Adulto, mas várias correções, acréscimos e o amadurecimento da escrita enriqueceram a narrativa:

(antes) "A vila Birtad respirava um outro dia de mercado. As ruelas estavam lotadas de gente que acorriam de toda parte para comprar, vender ou trocar."

(depois) "Começava um novo dia de feira em Baltar. Em ocasiões como essa, a cidade era tomada por flâmulas coloridas, desfraldadas das janelas dos casarões mais nobres. As ruelas se apinhavam de crianças acorridas de todos os cantos de Teres. A praça principal tornava-se um azafamado empório ao ar livre, onde se vendia e se comprava quase tudo

No começo de 1992 eu consegui comprar uma máquina de escrever portátil e dactilografei as primeiras quarenta folhas manuscritas em laudas. Essa tarefa me deu a primeira oportunidade de reescrever, ampliar e corrigir parágrafos inteiros dos primeiros capítulos, alguns dos quais estavam anotados e rasurados no manuscrito. Todavia, logo percebi que era mais difícil desenvolver novos capítulos diretamente na máquina de escrever e tornei a manuscrever.

Entre 1993 e meados de 1995, o ritmo da escrita diminuiu consideravelmente. Esse período corresponde ao fim da graduação na UFRJ e começo do mestrado na USP. As demandas da vida acadêmica forçaram essa pausa, mas a vida dos personagens também tinham me levado a um longo impasse: eles tinham acabados de ser presos em Lyrnyra, capital da Macebólia, e eu precisava encontrar uma forma de tirá-los de lá. Esse incidente introduziu um novo elemento à história: um antagonista. Até então, a história se desenvolvia como uma série de crônicas de viagem. A cada um ou dois capítulos, o grupo de crianças em busca do rei Adulto chegava a uma nova cidade, uma série de novos personagens era apresentada e um caso ou mini-história particular era desenvolvida. Em Lyrnyra, a história passou a se desenvolver como um confronto entre o grupo de Êisdur versus o príncipe Soslaio e o uso das plantas de imaginar.

Em 1996, os aventureiros finalmente chegam a Eix e um novo impasse surge, que coincide com a necessária pausa para eu finalizar minha dissertação de mestrado. Desta vez, o impasse fica por conta do romance que vai surgindo entre Harsínu e Ctara e de grande cuidado para mantê-lo dentro da temática do mundo mirim.

Em fins de 1997, comprei meu primeiro computador pessoal e passei a digitar todo o material que se encontrava manuscrito ou dactilografado. Tal como em 1992, aproveitei para reescrever trechos e padronizar vários nomes e topônimos que foram mudando à medida que os anos passaram. Só após digitar tudo de Teres a Eix, encontrei uma solução para o impasse entre Harsínu e Ctara e prossegui no manuscrito. Mas não demorou muito a que eu passasse a escrever os capítulos posteriores diretamente no computador.

De 1999 a 2001, várias mudanças ocorreram. O conflito entre o grupo de Êisdur e o "grupo" de Soslaio intensificou-se e recrudesceu. O tema "plantas de imaginar" ganhou tanto destaque quanto o próprio tema "Rei Adulto" e os capítulos escritos nesse período acabam por caracterizar quase um livro em separado. O texto já digitado foi várias vezes corrigido e editado e alguns capítulos foram incluídos entre os dez capítulos iniciais, após eu considerar que certos vínculos afetivos entre as personagens precisavam ser mais bem construídos.

Em 2001, com viagem marcada para iniciar um pós-doutorado nos EUA, impus a mim mesmo que a estória precisava ser concluída. E fiz um esforço final entre janeiro e maio de 2001 para completá-la. 

O Rei Adulto é uma estória sobre o amadurecimento. Durante sua produção, tanto as personagens, quanto seu próprio autor amadurecem. Isso teve um efeito inesperado, embora positivo, na narrativa: talvez, se eu a tivesse escrito toda em 1991, não conseguiria entender e descrever o problema a que me propunha, pois não teria ainda a vivência necessária.

domingo, 31 de julho de 2016

Criatividade, Fantasia e Imaginação

Há autores que nos inspiram e cativam por serem capazes de traduzir em palavras todo o maravilhamento e estranhamento do ambiente, ora físico, ora psicológico, no qual nossa existência vai se enredando. A inspiração pode estimular a busca por novas respostas, aproveitando o caminho seguro que eles indicam.



A leitura da obra de quatro grandes escritores, em diversos momentos de minha vida, estimularam-me a escrever O Rei Adulto: Michael Ende, Monteiro Lobato, J. R. R. Tolkien e J. M. Barrie. O resultado desse amálgama é uma apaixonante história que valoriza a criatividade, a fantasia e a imaginação.

Michael Ende foi o principal inspirador desta história, que nasceu de forma embrionária após a leitura de A História Sem Fim (Die Unendliche Geschichte). Ende desenvolve a mensagem em A História Sem Fim de que devemos contar e recontar histórias para que a Fantasia não desapareça. Mas enquanto A História Sem Fim trata do mundo da Fantasia humana, explorado por uma criança, O Rei Adulto descreve especificamente o mundo da imaginação infantil e suas conexões por vezes tênues com o mundo real.

Outra grande fonte de inspiração foram as histórias infantis de Monteiro Lobato, que li dos 9 aos 12 anos de idade. Vem daí o gosto pela Língua Portuguesa, a valorização dos mitos brasileiros presentes em O Rei Adulto, as estórias menores narradas pelos personagens a eles mesmos, como Emília e o Visconde de Sabugosa faziam, e a ligação entre magia e imaginação, que estende o conceito do pó de pirlimpimpim.

De Tolkien, intensifiquei a paixão pela linguística e pelos mapas, aliando-os à narrativa, além do cuidado em construir o universo ficcional e seu contexto histórico que retroalimentará conflitos ao longo de uma aventura épica.

Por fim, o Peter Pan de J. M. Barrie apresenta uma empolgante ode ao espírito juvenil e a relutância de Peter em deixar a infância. Esse tema é retomado de forma crítica em O Rei Adulto.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Em qual reino você morava quando criança?



Mundo das Crianças ou Mundo Mirim. Ambas as denominações são usadas como sinônimos no romance O Rei Adulto. Esse mundo é representado como uma realidade paralela; como se as crianças, ao reunirem-se para brincar, deixam o mundo físico e penetram num mundo de fantasia próprio apenas delas.

Nesta história, o Mundo Mirim é dividido em seis reinos soberanos, além de duas regiões que buscam a independência. Conheça as características principais de cada um deles.

Teres. É onde nossa história se inicia. É um reino relativamente insosso, pois sua principal característica é estar no ocidente e fazer fronteira com o Sul Ignoto. Sustenta-se com comércio entre os demais reinos e expedições que seguem para o Sul Ignoto. Tem um quê de “Novo Mundo”. É para Teres que os aventureiros afluem em busca de riqueza. Sua capital encontra-se a oeste dos Montes Baixos, o que isola bastante seu centro político dos demais reinos. Tem fama de ser um reino de roceiros e gente interiorana, sem requinte. Foi formado pela união de diversos reinos menores, alguns rivais entre si, mas conquistados e submetidos.

Guaipur. É o único reino que efetivamente tem fronteira marítima. Sua ligação com o mar é forte desde a sua origem, de modo que sua cultura privilegia a aventura no mar, corsários, piratas, serpentes e  ilhas do tesouro. As crianças guaipurinas não dão muita atenção aos assuntos das crianças dos reinos vizinhos.

Landau. É um país pobre, espremido entre Teres e Ístar. Já foi maior no passado, porém teve parte do território tomado por Ístar após a Guerra das Águas. Essa mesma guerra castigou-o tanto que as crianças landaucas se revoltaram, derrubaram a monarquia e instituíram a República Infantil de Landau. Por serem a única república entre duas fortes monarquias expansionistas, são muito fechados e desconfiados. Assuntos internos quase não são conhecidos fora de suas fronteiras. Crianças dos demais reinos os consideram esquisitos e perigosamente revolucionários.

Macebólia. É um reino muito fragmentado em subregiões, pois a Floresta de Grínkor ocupa quase todo seu território, deixando várias partes isoladas com respeito à capital. Foi formado pela união de quatro reinos rivais, e essa rivalidade ainda persiste entre a parte norte e sul do reino, uma vez que a Guerra das Águas isolou o Norte e o Sul, após as terras que os uniam serem conquistadas pelo Tamatich. Seus habitantes têm fama de serem metódicos, laboriosos e inventivos. Também gostam de uma boa comida e muito sono.

Ístar. Todos os demais reinos consideram-no como o reino vilão. Ao menos é assim que ele é tratado no começo da história, até os aventureiros chegarem a Ístar e descobrirem que isso é apenas um estereótipo. De fato, Ístar tem gosto por conquistas territoriais e bravatas e, nessa questão, sempre esteve tecnologicamente à frente dos demais. É composto por duas culturas: a dos ístaros propriamente ditos e a dos gandaios, estes sim arruaceiros e bravateiros em geral.

Tamatich. É o reino dos contos de fadas, o mais clássico reino infantil. Conservador ao extremo, valoriza as formas de linguagem antiquadas, a lenda, o medievalismo e cortesia. Foi por muito tempo o maior reino de todo o Mundo Mirim, antes que a Guerra das Águas o destronasse. Surgiu da união bem sucedida de dois reinos antigos e rivais: Tamma e Ticch. Seus habitantes são considerados requintados, cultos e um tanto esnobes.

As duas regiões que lutam pela independência são:

Eix. Antigo reino de guerreiros fortemente nacionalistas que Ístar conquistou durante a Guerra das Águas. Seu dever à pátria é, muitas vezes, exagerado. São eternos inimigos dos ístaros.

Grínkor. Nome da região administrativa macebol ocupada pela Floresta de Grínkor, habitada por indiozinhos da tribo dos caaporas, que há séculos buscam a independência dessa região, negada pelo governo macebol.

Além disso, as lendas infantis dão conta de que outros reinos podem existir além do Sul Ignoto, embora poucos alguma vez tentaram explorar essa pavorosa região.

E você? Em que reino morava quando criança?

domingo, 10 de julho de 2016

Que sotaque mais esquisito!




Que sotaque mais esquisito!... É assim que o ladrãozinho Wáldron reage ao ouvir pela primeira vez a fala de uma criança proveniente do Tamatich. Na vida real, todos temos estranhamento similar quando ouvimos um falar, um sotaque ou idioma próximo, levemente inteligível. Com algum esforço, é possível entender a maioria das palavras e o contexto completo da frase, mas ressoará vividamente no ouvido uma sonoridade e cadência pitorescas.

Como transpor para o texto esse estranhamento mágico que o som da fala de falantes diversos proporciona?

Em O Rei Adulto, com exceção do povo da mata, todas as crianças falam a mesma língua. Mas há diferentes falares, sotaques e, quanto muito, subdialetos.

Para representar esses falares imaginários num texto escrito, pode-se criar línguas artificiais ou usar o farto material linguístico já existente no idioma no qual a história será contada. Línguas totalmente artificiais representam bem mundos fantásticos e oníricos, mas carecem de apelo ao leitor, dado que seus elementos serão totalmente arbitrários. A segunda opção, por outro lado, quando aliada a algumas criações artificiais, pode representar melhor um conjunto de falares que guardam estreita relação entre si, no universo da história. Esta escolha pode ser melhor compreendida se considerarmos que toda história é em si uma tradução de pensamentos e ideias ao idioma escolhido para representá-la. Assim, ao contar (“traduzir”) O Rei Adulto na (para) a Língua Portuguesa, usei diversos recursos ortográficos, variantes históricas, sociais ou regionais do Português, bem como o Tupi Antigo, língua indígena que tanto enriqueceu o vocabulário do Português do Brasil e me pareceu, assim, adequada para representar o idioma dos caaporas. Grande liberdade foi tomada neste aspecto, no sentido de colorir cada etnia do Mundo Mirim.

São vários os falares que se sucedem na narrativa: o Sulino e o Nortenho (representados, respectivamente, pelo Português Brasileiro e Europeu), o arcaico Tammanor (representado pelo Português do Século XIII), o artificialíssimo Neotamano (que mescla o Nortenho e o Tammanor) e o desregrado Gandaio, adotado pelas crianças que vivem na Gandaia.

Aos poucos Wáldron irá se acostumar à fala dos tamatiscos, até se deparar com uma fala ainda mais arcaica:



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