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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Conheça a nova edição de O Rei Adulto!

No próximo dia 20 de dezembro, O Rei Adulto será lançado em versão de livro impresso pela Agência Literária AZO.



A história completa foi dividida em dois volumes. O volume 1 já tinha sido lançado em versão eletrônica em novembro de 2015. É esse mesmo volume que agora terá edição impressa em uma primorosa diagramação feita pela AZO.

Eis algumas fotos de sua diagramação:

A diagramação feita pela AZO inicia cada capítulo com uma página em
estilo de iluminura. As páginas ligeiramente amareladas dão um aspecto
envelhecido ao livro que combina bem com a história.


O livro é composto em Junicode, uma bela tipografia criada para estudos medievais.
As capitulares são da familia de tipos Goudy Initialen, criadas por Dieter Steffmann.

Mapas desenhados a nanquim também foram reproduzidos nas últimas páginas do livro:



O Rei Adulto está em pré-venda pelo site da AZO até a véspera do dia 20. Aproveite a pré-venda, pois o livro estará sendo vendido com 15% de desconto e frete gratuito para quem for buscá-lo no evento de lançamento!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Rei Adulto, vol. I, segue para a gráfica

Nos últimos dias, a Agência Literária AZO finalizou a diagramação do volume I de O Rei Adulto, que ganhará assim uma nova edição impressa. O arquivo já foi para a gráfica e esperamos que os livros estejam prontos para venda antes do dia de lançamento, 20 de dezembro.

Fiquem atentos para o período de pré-venda, pois o livro estará em desconto!

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Livros também forjam amizades

Os laços de amizade são a essência do que une o grupo de crianças que se junta a Êisdur Árland em busca pelo Rei Adulto.

A literatura também é capaz de forjar novas amizades, especialmente quando há afinidade de gosto literário. Renata é uma amiga de Instagram, também fã de Michael Ende e outros mestres da Fantasia alegórica. Ela iniciou recentemente a leitura d'O Rei Adulto e presenteou-me com essa linda postagem.

Curta seu instagram para conhecer outras recomendações de livros.


PRIMEIRA LEITURA DE FÉRIAS. 🙆📚😍🎉 . . A literatura é algo incrível e nos proporciona coisas maravilhosas com frequência. Muitas vezes essas coisas estão sempre ligadas à livros e pessoas, ou amizades literárias. 🌻 . . Recentemente tive a oportunidade de conhecer o Helio Jaques, uma pessoa super bacana que se não fosse a literatura, eu não teria conhecido. E o Helio também é escritor, e agora eu terei FINALMENTE a oportunidade de conhecer o trabalho dele, o livro "O Rei Adulto", uma leitura que eu estou mais do que ansiosa para fazer, porque soube que o livro foi inspirado em outros universos literários que eu amo, como por exemplo, A História Sem Fim, Peter Pan e O Senhor dos Anéis. 😱😍 . . ~~"Um dia você será velho o bastante para voltar a ler contos de fadas" - C.S.Lewis~~ . . Bom, em breve trago mais detalhes sobre essa leitura, porque agora preciso inicia-la. 😀 . . Obrigada pela oportunidade, Helio! Estou pronta para toda a nostalgia que com certeza o seu livro trará, aliás, acho que precisamos de momentos nostálgicos muitas vezes ao longo de nossas vidas, para que possamos sempre ter a recordação de "o que é ser criança" bem em cima da cômoda do coração. 💙🎠🎏 . . . #OReiAdulto #HelioJaques #Amazon #KindleUnlimited #literaturanacional #instalivros #lendonacionais #instabooks #leianacionais #leiabrasileiros #novosautores #LeiaNovosBr #leitorescompulsivos #Kindle #livros #libros #amoler #ler #literatura #livroinfantojuvenil #Skoob #rpgdemesa #reinos #medieval #contosdefadas #iluminuras #literaturajuvenil
Uma publicação compartilhada por Rana Pervane (@rana_twinkiee) em

domingo, 26 de novembro de 2017

A Biblioteca Infantil da Livraria Quaresma

Quando eu era criança, havia na estante de minha casa uma preciosa coleção de livros infantis, cuja importância para a história da literatura brasileira só fui conhecer décadas depois. Eu e meus irmãos a tínhamos ganhado de uma prima mais velha, Cármen de Freitas Borges, que fora sua dona anterior e "já tinha deixado o mundo das crianças" muitos anos antes.

À época, o que a tornava importante aos meus olhos era o capricho da edição e a diversidade de cenários aos quais a leitura de suas páginas me transportava. Eram doze volumes, de capa grossa, esculpida em baixo relevo, com detalhes dourados na lombada. Trazia historietas de poucas páginas, em linguagem acessível, várias delas ilustradas por xilogravuras e vinhetas. O conjunto era conhecido pelo nome Biblioteca Infantil da Livraria Quaresma.

Exemplares da Biblioteca Infantil da Livraria Quaresma,
edição de 1957, após quatro gerações de crianças na família...
Eram doze os volumes da Biblioteca:
  1. Contos da Carochinha
  2. Teatrinho Infantil
  3. Histórias da Avozinha
  4. O Reino das Maravilhas 
  5. Histórias do Arco da Velha
  6. Os Meus Brinquedos
  7. A Árvore de Natal
  8. Histórias do País de Ali Babá
  9. Histórias Brasileiras
  10. Histórias da Baratinha
  11. Contos do País das Fadas
  12. Álbum das Crianças

Essa coleção foi o mais bem-sucedido produto da antiga Livraria Quaresma, inicialmente conhecida como Livraria do Povo. Seu editor-livreiro era Pedro da Silva Quaresma. Em 1894, Quaresma lançava o primeiro dos livros que veio a compor sua coletânea: os Contos da Carochinha, organizado por Alberto Figueiredo Pimentel, que já era conhecido como cronista popular do jornal Diário de Notícias e escritor adepto do movimento realista. Além de Figueiredo Pimentel, autoram alguns dos livros da biblioteca Viriato Padilha, Gondim da Fonseca e Tycho Brahe (não o astrônomo quinhentista, mas sim um escritor brasileiro do começo do século XX).

Sua importância na literatura brasileira é pouco conhecida fora do círculo acadêmico. Pedro Quaresma foi o iniciador da literatura infantil brasileira, precedendo Monteiro Lobato em quase 40 anos. Em fins do século XIX, poucos livros eram produzidos no Brasil, a maioria precisava ser importada de Portugal ou da França. Os títulos disponíveis aos jovens eram, notadamente, obras de cunho cívico-patriota, religiosos ou compilações francesas. A Livraria Quaresma iniciou uma revolução literária ao se propor a produzir livros de qualidade, ricamente ilustrados, com uma linguagem próxima do português coloquial falado no Rio de Janeiro, a preços acessíveis a diversas classes sociais. Incorporando o nome da antiga livraria, Pedro Quaresma, de fato, queria vender livros para o povo.

Anúncio da Livraria Quaresma, em 1957,
no jornal carioca Diário de Notícias.

Sua fórmula parecia mágica, mas, vista de perto, é fácil entender a razão de seu sucesso. Quaresma e seus escritores apresentavam histórias colhidas da tradição oral ou antigas histórias européias sob uma versão abrasileirada, nas palavras de Borges & dos Santos (2008). Havia uma preocupação explícita em promover hábitos desejáveis aos "brasileirinhos" através do prazer da leitura, de modo a contribuir com a formação de uma identidade nacional legitimamente brasileira.

A Biblioteca Infantil da Livraria Quaresma, e outras que se seguiram em cópia à fórmula, fomentou o hábito da leitura entre os filhos das classes assalariadas de boa parte do século XX, criando nesses um ambiente cultural comum, que é posteriormente ampliando com o Sítio do Pica Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, tanto em sua forma original, literária, quanto em sua adaptação televisiva, nos anos 70-80, pela Rede Globo. Várias mini-histórias que aparecem na obra de Monteiro Lobato ou na adaptação televisiva eram também histórias dos livros de Quaresma. O próprio registro de alguns contos de tradição oral permitiu manter a memória das contadoras de histórias dos séculos XIX, muitas delas confluência de narrativas trazidas pelos negros da África com mitos ameríndios.

Bem antes de George R. R. Martin, já havia um Cavaleiro
das Flores na Biblioteca Infantil da Livraria Quaresma

Andréa Leão (2007) narra como uma das consequências das publicações de Quaresma o caso de um menino de 4 anos que era considerado um prodígio por ser capaz de "ler" histórias antes de ser efetivamente alfabetizado. Ela considera que Quaresma teve o mérito de introduzir as crianças brasileiras à narrativa dos contos de fada, familiarizando-as aos livros e revistas.

Sendo uma das minhas primeiras leituras, é claro que a estrutura narrativa dessa coleção de algum modo influenciou minha escrita de O Rei Adulto décadas depois. O próprio apreço a temas de contos de fadas europeus e sua mistura a elementos brasileiros, presente tanto em O Rei Adulto, quanto nos livros de Quaresma, é disso uma pista. Mas quis homenageá-la de modo ainda mais explícito, mencionando textualmente dois de seus livros:

Diversas eram as companhias de marionetes a apresentar, inúmeras e seguidas vezes, peças clássicas do folclore infantil, como O Menino e o Lobo, João e Maria e Os Contos da Carochinha. (Capítulo 1)

Letras prateadas destacavam o título: Histórias do Arco da Velha. Incentivado pelos colegas, o menino tomou o livro entre as mãos e abriu-o ao acaso, sorteando uma página. (Capítulo 27)

Referências

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Não perca as novidades sobre O Rei Adulto

Essa postagem é diferente de outras. Ela se destina a você que gostou da proposta de nosso livro mas quase não recebe as atualizações e novidades. Toda semana há algo novo, mas provavelmente você não soube, e a culpa não é sua, mas sim da plataforma onipresente que mais usamos para interagir socialmente: o Facebook.

Essa imagem foi postada na fanpage O Rei Adulto do Facebook, mas
poucos a verão por conta da política de veiculação dessa plataforma.


Pressupõe-se que quando você curta uma página ou grupo no Facebook, quer receber mais de seu conteúdo pela timeline. Nos primórdios do Facebook, isso funcionava muito bem. Atualmente, o modelo de negócios dessa rede limita substancialmente o que você recebe, inclusive as postagens de seus próprios amigos. As chances de você ver uma postagem são maiores se ela for mais popular: se tiver curtidas, comentários e compartilhamentos. Ao contrário, se ela não tiver ao menos uma curtida, poucas pessoas a verão, mesmo aquelas que curtiram a página ou grupo para, em tese, recebê-las. E isso pode piorar. A tendência para os próximos anos é que o Facebook passe a veicular organicamente nas timelines apenas as postagens que foram impulsionadas (i.e., pagas). Assim, todos os pequenos produtores de conteúdo ficarão inviabilizados, e você só verá suas postagens se criar o hábito de verificar cada página individualmente.

Hoje, a fanpage O Rei Adulto possui 854 seguidores. Mas cada postagem é recebida, em média, por apenas 30-80 destes; às vezes, esse alcance é tão baixo quanto 26 pessoas! Essa estatística se repete para qualquer página ou grupo que você segue, mesmo as de jornais: o alcance orgânico fica em 5-10% do total de seguidores. Se o produtor de conteúdo deseja maior audiência no Facebook, precisa desembolsar. E, mesmo assim, não atinge necessariamente todos os seus seguidores.

É possível diminuir essa perda de conteúdo com uma modificação nas configurações da página ou grupo que você segue. A imagem abaixo mostra como: marque a opção "ver primeiro" nas páginas que você mais gosta.

Faça essa mudança na configuração de todas as páginas que curta muito.

Você também pode ajudar a fanpage (bem como qualquer página que segue), para que outras pessoas recebam nossas publicações. Curtindo, comentando ou compartilhando as postagens, aumentará o alcance orgânico e outros poderão receber o conteúdo. Esse hábito pode fazer até mesmo você receber o conteúdo, pois o engajamento de outrem foi o que eventualmente fez a postagem aparecer em sua própria timeline.


O Rei Adulto também está presente em outras redes sociais, que não têm tantos bloqueios como o Facebook. Em particular, o Instagram @oreiadulto é a melhor opção, caso você queira principalmente ver as ilustrações. Essas também estão disponíveis na nossa conta do Google+. Caso prefira o twitter, siga @reiadulto. No Pinterest, além das ilustrações temáticas do livro, mantemos uma coleção de capas das diversas edições de A História Sem Fim, mapas e imagens de temática medieval. Há um canal no Youtube, ainda tímido em conteúdo. E, finalmente, o próprio blogger; mas a menos que crie o hábito de visitá-lo, só saberá dessas postagens nos anúncios feitos nas demais redes.

O conteúdo que produzimos é para vocês que nos curtem. Não o percam! Em breve teremos uma nova edição impressa do volume 1 disponível para venda. Fiquem atentos!

domingo, 29 de outubro de 2017

Role Playing Games e a aventura imersiva

Estreou nesta semana a segunda temporada da famosa série Stranger Things, que alia monstros, aventura e suspense no melhor estilo dos anos 80. Uma das referências que a série faz é ao jogo Dungeons & Dragons (D&D, para os íntimos), o pai de todos os jogos de RPG. Logo no primeiro capítulo, os quatro meninos da trama são vistos enfrentando no jogo o Demogórgon, uma das criaturas do universo de D&D. Esse é justamente o nome que eles dão ao monstro do Mundo Invertido que captura o jovem Will e passa a atacar sua cidade nos capítulos seguintes. Como se estivessem imersos na aventura criada pelo próprio jogo, os meninos transportam para a realidade os inimigos e o conflito que anteriormente enfrentavam apenas com dados de 8, 10 e 20 lados. Se as referências imersivas forem mantidas na segunda temporada, devemos esperar para os capítulos vindouros o aparecimento da Tessálidra, o monstro multicabeçudo que finaliza a partida de RPG que eles jogavam, no último capítulo da primeira temporada.

Quem nunca jogou RPG pode ter dificuldade em compreendê-lo. Não se trata dos jogos eletrônicos inspirados em RPG, mas sim do clássico RPG "de mesa".

É um jogo, mas não há tabuleiro? As regras são mesmo descritas em vários livros e compêndios? Qual o objetivo, afinal? São algumas das perguntas que os não iniciados costumam fazer.

Um Role Playing Game pode ser melhor entendido se traduzirmos seu nome em inglês: Jogo de Representação ou Jogo de Atuação. Trata-se de um jogo em que os participantes representam papeis ou atuam, de modo a permitir que uma história seja contada de modo interativo e imersivo. Os participantes são personagens dessa história e agem como se ela fosse real, no momento da partida. Não é necessário um tabuleiro, mas regras pré-estabelecidas servem para resolver conflitos e ações, que incluem desde a recepção a uma abordagem pessoal até manobras em combate e dano conferido por determinada arma. Um sistema de RPG é um conjunto dessas regras, reunidas de forma consistente com a abordagem do jogo. Não é obrigatório, mas frequentemente um sistema de RPG é publicado com um mundo próprio ou um cenário de aventuras. Por exemplo: o sistema D&D foi concebido para aventuras medievais do tipo "caça ao monstro", o antigo MERP foi ajustado para aventuras na Terra Média de Tolkien, enquanto o Storyteller privilegia a narração e a atuação sobre o mero combate, num mundo sombrio repleto de vampiros, lobisomens e outros seres inumanos. Também há sistemas genéricos, que podem servir para diversos cenários, como GURPS e D20. Em todos esses casos, um jogador atua como mestre do jogo, sendo o responsável pela narração do cenário, controle dos personagens coadjuvantes, solução dos conflitos, etc. Embora não haja um tabuleiro, é comum o uso de uma folha coberta por uma grade de células hexagonais, que pode ser sobreposta a um mapa, e é usado para controle de situações táticas.

RPGs costumam ser a porta de entrada de um escritor iniciante às histórias de fantasia. A própria necessidade de imersão da aventura pode estimular nesse escritor a característica (ou vício?) de construção de mundos. Para alguns, a construção de mundos é uma atividade levada tão a sério, que acaba destruindo os elementos fantásticos da narrativa — afinal, se exigirmos 100% de realismo dum mundo de fantasia, não há espaço para a magia. 

O escritor Chuck Wendig também acredita que um escritor iniciante pode aprender muito numa mesa de RPG. Em jogos de RPG, o mestre do jogo precisa lidar com os conflitos entre as personalidades diferentes dos jogadores que estão atuando; isso é um grande laboratório para o escritor aprender a contar histórias. Sua audiência está ao lado à espera de uma boa história e contribui para ela, dando ao escritor/narrador aspectos novos da situação que ainda não tinham sido considerados.

Escrever um livro requer habilidade para descrever, elaborar cenários, situações e montar um enredo que cative o leitor. O mestre do jogo tem os mesmos desafios, mas tem liberdade para fazê-lo por meio de palavras, desenhos e objetos visando prender a atenção e obter colaboração de seu grupo de jogadores. Ambos trabalham com a criatividade e justamente por isso uma geração inteira de escritores de fantasia e atores admitem ter sido inspirada pelo velho Dungeons & Dragons, incluindo George R. R. Martin.

Apetrechos de meu antigo grupo de RPG MERP/Rolemaster.

Devo ter jogado D&D propriamente dito apenas uma vez na vida. Minha experiência com RPG iniciou-se mesmo com o Middle Earth Role Playing Game (MERP) e seu "sistema pai", o Rolemaster. Meu grupo de RPG jogava na Terra Média, na península do Andrast e nas planícies costeiras de Anfalas, por volta de 1085 T.A.. Gondor era governada por Hyarmendacil I. Escolhemos um período obscuro da cronologia de Tolkien para termos mais liberdade de ação no jogo.

Era uma atividade realmente imersiva, que frequentemente extrapolava o tempo da partida e se tornava assunto para conversas ao longo da semana. Das demandas da atividade de mestre do jogo, recebi estímulo para aprender a desenhar mapas, estabelecer cenários, narrar lutas, conceber artefatos. Também aprendi a envelhecer papel, encadernar, modelar personagens em durepox, confeccionar runas, entre outras coisas. O RPG e a aventura semanal foram estimulos constantes ao uso da criatividade para tornar ainda mais imersiva a história para meus personagens. Houve momentos em que usei até mesmo música ambiente para incrementar a campanha.

Muitas vezes, a criatividade necessita estímulos. Uma partida de RPG oferece justamente essa pletora de estímulos, ao nos colocar atuando em contextos completamente diferentes de nosso dia a dia.

Cena do capítulo X de meu livro O Rei Adulto, que lembra mais claramente uma
partida de RPG. As aventuras das crianças em busca do irmão mais velho de
Êisdur, que abandonou o Mundo Infantil após chegar à adolescência, pode deixar
o leitor com a impressão de que toda a história é uma partida de RPG que se
desenrola na imaginação delas.

O RPG de mesa funciona como a mediação entre o instinto de construção de mundos do mestre do jogo e a fantasia inesperada trazida pelos jogadores. Uma campanha de RPG não têm fim pré-estabelecido, há apenas o cenário construído pelo mestre, no qual os jogadores atuarão e buscarão as glórias das façanhas dignas de serem narradas como lendas.

Qual sua relação entre RPG e literatura? Comente abaixo.

Se você nunca jogou RPG e interessou-se, pode baixar as regras básicas do jogo gratuitamente neste endereço.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Bento que Bento é o frade

Era um folguedo divertido. Sempre que havia tempo vago, entre uma aula e outra, lá estávamos nós a declamá-lo!

— Vamos brincar de Mestre? — era o convite irresistível para um momento de desafio à valentia e um afago no doce sadismo infantil, típico de púberes.

Colagem de iluminuras dos pergaminhos medievais Comentario al Apocalipsis
do Beato de Liébana, e Commentary on Daniel, de Jerome, ambos do século X
(manuscrito Add MS 11695 na British Library, folios 23v, 223 e 228v); ilustrações
distribuídas sob a licença Creative Commons CC0 1.0 pela The British Library.

O primeiro mestre era eleito no Zerinho ou Um, o pleito sagrado das crianças, nunca questionado pelos perdedores. Tão logo empossado, questionava nossa lealdade às suas ordens, recebidas com brados igualmente eufóricos, como fôssemos nobres vassalos de um grande senhor:

— Bento que Bento é o frade!
— Frade!
— Na boca do forno! 
— Forno!
— Tudo que seu mestre mandar?
— Faremos todos!
— Se não fizer?
— Levaremos um bolo

E começavam seus desafios: corra até o muro e volte o mais rápido que puder!, traga-me uma flor branca!, pule cem vezes!, imite uma tartaruga! faça isso!, faça aquilo!

Mas, às vezes as ordens podiam ser mais perturbadoras: puxar o cabelo de alguém que estava fora da brincadeira, sujar a roupa de lama, etc.

Todos queríamos ser mestres, e justamente por isso empenhávamo-nos em cumprir as ordens da melhor forma possível. Era a única forma de ascender e chegar àquela posição de mando, quando poderíamos apresentar desafios ainda maiores e elaborados, além de ir à forra com o mestre anterior.

Pois o folguedo era claro: quem não cumpria a ordem, levava um bolo.

O "bolo" era um tapa na mão espalmada, que apresentávamos ao mestre para a aplicação da pena. O mestre inquiria se o queríamos quente ou frio, uma senha para forte ou fraco. Éramos jovens em busca de auto-afirmação, e a pressão para receber o bolo quente era enorme; mas sempre contávamos que ele viria morno, se o mestre fosse um amigo próximo, que o compadrio já começa na infância... E afinal, bolo quente demais poderia ser retribuído na rodada seguinte, quando o mestre se tornasse súdito; o melhor era não arriscar muito no castigo.



A brincadeira é conhecida em vários estados brasileiros. Há registros no Pará, Mato Grosso, por todos o Nordeste, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo... Alguns a chamam "Boca do Forno", "Boca de Forno", 'Jogo do Frade" ou "Bento que Bento Frade". Há variantes nas ordens e em suas respostas; provavelmente efeito de um "telefone sem fio", de tradição oral reproduzida de memória por mais de um século, por pais, tios e avós, e irmãos e primos mais velhos.

Cecília Meirelles, João do Rio e outros estudiosos da cultura brasileira mencionaram-na. A origem da brincadeira parece fazer alusão a atos culinários do forno do Frade Bento. No Espírito Santo, em 1876, a estrofe mantinha essa alusão clara: Bento que bento ao frade? / Frade! / Aonde quereis que vade? / Vade! Na bocca do fôrno / Fôrno! Buscar um bôlo / Bôlo!  Isso também de vê numa crônica de 1867, escrita em Taubaté: o Bento que Bento frade já não grita p'ra que se tire os bolos, nas matinas, da bocca de um forno.

Se isso já era comentado nesses termos em 1867, a tradição deve ser ainda mais antiga, dos setecentos ou começo dos oitocentos, provavelmente ligada à colonização portuguesa ou à cataquese, considerando a extensão de seu conhecimento pelo território brasileiro.



Não me recordo quando foi a última vez que brincamos de Mestre. Aos doze anos de idade, já não era mais uma opção de passatempo: o futebol e o vôlei na quadra escolar suplantaram-no. Deixávamos de lado sua ode ao desafio individual e à tirania do mandatário do turno por uma atividade mais coletiva, um espírito de time (embora alguns fominhas ficassem plantados diante na pequena área à espera da bola, como se nada mais importasse na pelada).

Talvez brincadeiras como o Mestre, mesmo tingidas por uma ordem hierárquica, serviam para que treinássemos nossos limites e a empatia perante nossos colegas. Ordens injustas ou profundamente vexatórias seriam repudiadas e o mestre sofreria críticas, como em qualquer sociedade; já as ordens e desafios inteligentes eram recebidos com prazer, pois a diversão consistia justamente de não saber o que seria exigido e surpreender-se com sua própria capacidade de cumpri-lo.